MCC - ESCOLAS VIVENCIAIS CAMPINAS

MCC - ESCOLAS VIVENCIAIS CAMPINAS

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

ESPIRITUALIDADE

VIVER A ESPIRITUALIDADE CRISTÃ EM TEMPOS DE CRISE

Pe. José Gilberto BERALDO
 São Paulo, 12 de Abril de 2016








Introdução

O filósofo sul-coreano moderno, atualmente professor em Paris, Byung-Chel Han, afirma em seu livro com o mesmo título, que a sociedade ocidental está caminhando rapidamente para o que ele chama de uma “sociedade do cansaço”. E isso é particularmente significativo nestes momentos de crise pelos quais estamos passando. O resultado disso está tanto na violência na sociedade, como naquilo que ele chama de “violência neuronal”, ou seja, algo que nasce em nós mesmos e que é, ao mesmo tempo, contra nós: depressões, ansiedades, neuroses, desesperos, etc.

  Tudo isso passa pela minha cabeça quando a referência é, sobretudo, a religião ou a prática religiosa entendida como “espiritualidade”. De fato, um limitado conceito do que seja a autêntica espiritualidade, aliado a certo desespero gerado pelas necessidades materiais diante dos momentos de crise, leva muitas pessoas a buscar soluções imediatas dos seus muitos problemas (saúde, financeiros, familiares e outros tantos) nas várias, tentadoras e, quase sempre, disparatadas propostas ou promessas oferecidas pelas crenças, adeptas da chamada “teologia da prosperidade”. Ali, sonhos são alimentados e, ao mesmo tempo, são sepultadas as últimas esperanças! Incluo aqui também a atitude de muitos católicos que esperam de sua crença católica a mesma “solução” prometida por determinadas igrejas pentecostais.

  |Nasceu daí meu desejo de tratar da necessidade de não perder a autêntica dimensão da espiritualidade face à crise do tempo presente. Sem qualquer pretensão de esgotar o assunto, mas, pelo contrário, deixando-o aberto para outras reflexões, tentarei fazê-lo em quatro pontos: 1) o que se entende por espiritualidade; 2) o que são “tempos de crise”; 3) A crise assumida por todos os cidadãos; 4) atitudes do cristão inspiradas na Palavra de Deus (espiritualidade); Conclusão.

1. O que se entende por espiritualidade?
Numa palestra, fez-se essa pergunta ao Dalai Lama, o mais alto representante do budismo tibetano. E ele respondeu: "É aquilo que transforma o teu interior. A religião pode nos passar espiritualidade, mas se não nos transformar internamente não faz o menor sentido”.

Além disso, parece-me oportuno lembrar outras dimensões de “espiritualidade” que podem ajudar numa compreensão mais ampla do que ela seja. Eis duas citações que poderão elucidar melhor o que desejo dizer – e não é da parte de nenhum bispo, padre ou religioso-: “O principal desafio da gestão de crise é como superar a apatia, o orgulho e a negação. O principal desafio da espiritualidade é superar a falsa percepção de que espiritualidade é uma questão totalmente fora da realidade e que não se aplica à maioria das organizações... E quanto à espiritualidade? Como ela está se saindo? Infelizmente, não muito melhor. Primeiramente, espiritualidade no local de trabalho não é uma religião. Não é sobre forçar todos a ter ou se adaptar ao mesmo sistema de crença. É sobre como reconhecer que quando as pessoas vêm para o trabalho, elas não deixam seus “lados espirituais” em casa...Pesquisas também mostram que essas organizações que aprenderam a empregar as necessidades espirituais de seus empregados e de todos os colaboradores são mais lucrativas e produtivas...
Afinal, conclui: “Toda crise é uma crise espiritual”[1].

D. Pedro Casaldáliga, conhecido bispo emérito de São Félix do Araguaia, assim pensa a espiritualidade: “O espírito de uma pessoa é o profundo e dinâmico de seu próprio ser: suas motivações maiores e últimas, seu ideal, sua utopia, sua paixão, a mística pela qual vive e luta e com a qual contagia...”. “Toda a pessoa está animada por uma espiritualidade ou por outra, porque todo o ser humano - cristão ou não, religioso ou não - é um ser também fundamentalmente espiritual ... mais que biologia pura. Perder essa dimensão profunda é deixar de ser humano”.

Se essas afirmações são fundamentais para pessoas, empresas ou demais instituições civis, ela é essencial para todos aqueles que professam alguma crença ou praticam alguma religião, seja ela qual for. Porque essencial?

Porque a experiência mostra que numa grande maioria dos casos, a espiritualidade se resume à prática de algumas orações, ou à recitação de novenas e pedido de graças; ou à assistência rotineira à missa dominical; ou num pedido de bênção e de uso de água benta ou a outros atos exteriores. Diria que são muito válidos e louváveis esses gestos desde que conduzam ao encontro do essencial que é a volta para o encontro com Jesus.

Quem sabe, até, tudo assim acontece para continuar uma tradição familiar; por ter-se tornado uma rotina; por cultuar fanaticamente alguma suposta aparição; ou por conveniência pessoal – isto é, como algo que possa, de algum modo, acalmar a consciência uma vez que tal crença ou prática podem levar à sensação de perdão por alguma falta, livrando a pessoa de remorsos e infidelidades. De modo geral, entende-se a espiritualidade como fenômeno reservado unicamente a poucos privilegiados e a “coisas de Deus”!

Dessa forma, cresce aquele vazio interior que hoje tão facilmente se experimenta quando se constata que nem as conquistas do ter ou do poder, nem ou as vaidades pessoais ou o orgulho conseguem preencher o coração ou saciar os anseios mais profundos de todo ser humano.  

Voltamos, então, à definição do Dalai Lama. Se sua crença ou sua prática religiosa não muda algo em você por dentro, ou seja, o seu espírito, então não se pode chamá-la de espiritualidade, por mais orações que você faça, por missas que você assista ou por sessões espíritas que você frequente... Assim, ao mudar seu interior ou ao transformá-lo, a espiritualidade vai-se refletir na sua vida prática e, portanto, nas suas ações do dia a dia. Eu diria, no chão no qual você tem os pés!

2. O que são “tempos de crise”, suas manifestações pessoais e culturais:

“São muitos os conflitos que sacodem hoje nossa sociedade. Além das tensões familiares e enfrentamentos que ocorrem entre as pessoas e no seio das famílias, graves conflitos de ordem social, política e econômica impedem entre nós a convivência pacífica”[2], diz José Antonio Pagola.

E continua o teólogo espanhol: “Para resolver os conflitos, sempre temos que fazer uma opção: ou escolhemos a via do diálogo e do mútuo entendimento, ou seguimos os caminhos da violência e do enfrentamento. Por isso, muitas vezes, o mais grave não é a própria existência dos conflitos, mas o fato de que se pode acabar acreditando que os conflitos só podem ser resolvidos por meio de imposição da força!”[3].

Todos já podemos dar-nos conta de que, aqui entre nós, se aprofundam os conflitos de toda ordem e, sobre os quais, nenhum de nós poderá dizer “eu não tenho nada com isso”. Pois, de certo modo, ainda que muito indiretamente, todos somos responsáveis por eles.

2.1. Crises de ordem pessoal. São, entretanto, profundamente sentidos e, até, dolorosamente vividos os momentos de crises pessoais. Aí estão eles nas situações de profundo desânimo, de obscuridade na fé, de desilusões em amizades que se diziam fiéis a todo custo, das chamadas “síndromes” de todo tipo, por exemplo, da que parece estar mais “na moda”, a do pânico; dos momentos quase incontroláveis do ódio, da depressão e, quem sabe, para muitos, do desespero. Não nos esqueçamos, porém, de que, na grande maioria dos casos, essas crises encontram sua origem ou se agravam nos momentos pelos quais passa a sociedade, pois, como pessoas, dela participamos e dela depende nossa vida.      

2.2. Crises de ordem social. Ademais, teria razão o filósofo ao afirmar que a nossa sociedade se está tornando uma sociedade do cansaço? Falta de consciência política no povo em geral; corrupção generalizada de considerável parte de políticos; violência nas cidades e nos campos por conta de um partidarismo nocivo que se tornou fanático em torno de pessoas; grave instabilidade política; economia em recesso ameaçando, até, com o espectro da fome a muitos brasileiros. Essas e outras fontes da crise atual estão nos levando ao desinteresse pelo bem comum. Não somente ao desinteresse, mas, pior, à desilusão, à desconfiança, à violência até à extinção de tantas vidas inocentes...tudo confirmando que, efetivamente, caminhamos rapidamente para uma “sociedade do cansaço”.

Diante disso, é absolutamente oportuna a observação de que é necessário fazer uma opção. Cristãos, católicos, seguidores que dizemos ser ou que desejamos ser do caminho de Jesus, qual deve ser a nossa opção? Outro questionamento importante: superar tempos de crise é tarefa apenas pessoal, é obrigação dos que são política, econômica, social e religiosamente, responsáveis por esse estado de coisas ou requer uma mudança radical de cultura? 

Refiro-me aqui, à cultura como mentalidade já introjetada não apenas nas cabeças de alguns indivíduos, mas no modo de agir, no comportamento de todo um povo e que, no caso dos tempos de crise, pode-se chamar de uma “cultura da violência”[4].

3. A crise assumida pelos cidadãos (ãs)

3.1. O cidadão consciente e responsável. Nascidos numa pátria e participando de todos os seus momentos, bons ou maus, favoráveis ou contrários da história e dos acontecimentos, todos dela somos cidadãos. Nessa condição, nela assumimos direitos e para com ela temos deveres inalienáveis, independente de raça, credo ou sexo. Verifica-se, porém, que nem todos alimentam esta mentalidade e convicção e, mesmo aqueles que parecem compartilhá-las, nem sempre as transformam em vida. Muitos creem que o correto funcionamento de um país depende inteiramente do governo; o respeito é possível somente pela imposição de leis, enquanto as crenças ou religiões devem ser controladas apenas por seus líderes ou responsáveis. Eximem-se, assim, de responsabilidades na construção de uma sociedade justa e fraterna lutando somente pelos seus direitos de cidadão. Resumindo: são cidadãos omissos e irresponsáveis, instalados no seu comodismo e alimentados unicamente pelo seu egoísmo em detrimento de seus concidadãos. Urge despertar neles uma consciência e uma mentalidade mais responsável, sobretudo em situações de crises e de desafios para toda a sociedade.

3.2. O cidadão cristão que busca viver à luz da fé. O cidadão cristão assume e vive sua cidadania na ótica da fé em Jesus. Fé que se traduz numa espiritualidade nascida na Palavra de Deus e por ela sempre alimentada, sobretudo através dos Evangelhos. Assim, estão na raiz da espiritualidade cristã, sobretudo o Pai-nosso ensinado por Jesus e as Bem-aventuranças por Ele proclamadas.  

Um aspecto importante da vivência de uma autêntica espiritualidade, ainda que não seja tão aparente, é o de vivê-la comunitariamente testemunhando desse modo uma “Igreja em saída”, como sonha o nosso papa Francisco na Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho” (EG 20 ss). Costuma-se dizer de uma pessoa que se dedica muito à oração, que passa a maior parte do seu tempo na igreja, que reza muitos terços ou faz muitas novenas, chegando, até, a negligenciar seus deveres de família e de cidadão, diz-se, repito, que é uma pessoa muito espiritual. Em coerência, porém, com o que vimos refletindo até aqui, embora reconhecendo a absoluta necessidade da oração, de maneira especial da frequência à mesa do Senhor – a da Palavra e a da Eucaristia – é necessário enfatizar que uma pessoa muito espiritual é aquela que, deixando-se transformar por dentro pela ação do Espírito Santo com a Palavra de Deus, segue o caminho de Jesus, testemunhando nas realidades do mundo, os valores e critérios do Evangelho sobre os quais refletiremos mais abaixo. Aí está um cristão, uma cristã, que vive intensamente a espiritualidade.

         Ouçamos mais uma vez a palavra de Francisco:A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão reveste essencialmente a forma de comunhão missionária” (EG 23). Se é que corretamente interpretamos, entende-se por “intimidade itinerante” uma “espiritualidade em saída”, um cristão transformado por dentro pela Palavra que, pelo seu testemunho de vida, mostra ao mundo o caminho de Jesus não compactuando, nem em pensamento, com as injustiças, com a violência ou mesmo, com as “pequenas infrações” de cada dia: no trânsito (ultrapassa em local proibido, anda de bicicleta na contramão ou atravessa fora da faixa de segurança), nas filas de espera, nos “furtos despercebidos” de pequenas coisas, enfim, no “levar vantagem em tudo”... etc.. 

         Apresentemos, então, como um itinerário, sobretudo para tempos de crise, a proposta do próprio Jesus para a vivência de uma autêntica espiritualidade.  

4. Um itinerário para a vivência da autêntica espiritualidade – atitudes inspiradas na Palavra de Deus, no Pai-Nosso e nas Bem-aventuranças.

4.1. Perseverança. Pelos desconfortos e momentos de instabilidade emocional causados pelas crises, é natural que todos sonhemos com que elas sejam superadas de imediato. Mas, um dos traços da espiritualidade cristã é o de continuar fazendo cada um a parte que lhe compete, sem desanimar. Vamos ao Evangelho de Lucas: “É pela vossa perseverança que conseguireis salvar a vossa vida” (Lc 21, 19). Ouçamos um conselho bem prático de São Paulo aos Romanos: “Sede...alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração” (Rm 12, 12).

4.2. Paciência. Por outro lado, a perseverança põe à prova a virtude da paciência, quase uma raridade nesses tempos de imediatismo e de querer-se tudo para hoje, quanto mais em tempos de crise. É o Apóstolo Pedro quem nos adverte: “Entretanto, se fazeis o bem e suportais com paciência os sofrimentos, isso vos torna agradáveis junto a Deus” (2Pe 2,20). Aos Romanos São Paulo aconselha: “Tudo o que outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, para que, pela paciência e consolação que nos dão as Escrituras, sejamos firmes na esperança” (Rm 15,4).

4.3. Justiça.  A justiça pode ser distributiva: dar a cada um o que lhe pertence ou pode ser comutativa: pagar o que é devido a cada um. Essa é a justiça da lei. Ou seja, a justiça elaborada visando à pacífica convivência entre os seres humanos. A justiça aqui lembrada chama-se justiça evangélica ou, como a ela se referem, também, alguns teólogos, “excessiva”, pois excede e supera as duas primeiras brotando do coração de um Pai misericordioso. Ao proclamar as Bem-aventuranças, Jesus lembra, precisamente, a justiça: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados”...”Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,6;10). Excessiva é, de fato, a justiça do Pai celestial: “Eu vos digo: se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos céus” (Mt 5, 20). E o papa Francisco, depois de coerentes e ricas considerações sobre justiça e misericórdia na Exortação Misericordiae Vultus (MV) – “O Rosto da Misericórdia (MV 20-21), afirma: “Se Deus Se detivesse na justiça, deixaria de ser Deus; seria como todos os homens que clamam pelo respeito da lei. A justiça por si só não é suficiente, e a experiência mostra que, limitando-se a apelar para ela, corre-se o risco de destruí-la. Por isso, Deus, com a misericórdia e o perdão, passa além da justiça” (MV 21).

4.4. Compreensão/Respeito. Ânimos estão exaltados; manifestações públicas parecem ter servido quase unicamente como oportunidade para agressões pessoais; revides estão presentes em repressões quase sempre violentas, etc. Diagnóstico? Fácil: falta compreensão com as diferenças na maneira pensar de cada um e com as opiniões alheias. Consequentemente, falta-se ao respeito com as pessoas, aprofundam-se as inimizades, criam-se dissensões até no seio das próprias famílias, agride-se a torto e a direito e o clima é de animosidade permanente. Eis o conselho do Apóstolo para essas ocasiões de tantas e tão generalizadas crises: “Dai a cada um o que lhe é devido: imposto, contribuição, ou, também, o temor e o respeito” (Rm 13,7).

4.5. Misericórdia/Perdão: Referindo-se à misericórdia e ao perdão num contexto de crise provocada por toda espécie de desvios, de absoluta falta de ética e de vergonha, de malversação do dinheiro público, etc., poderia alguém ser induzido a pensar que deveria acontecer uma cooptação, um assentimento ainda que silencioso ou, pelo menos, desculpas e justificativas para todos os desmandos. Apresso-me a afirmar que não deve ser esta a proporção de aplicação da essência da Boa Notícia aos fatos. É necessário, sim, compreender as limitações humanas a que todos estamos sujeitos. Que se cumpram as leis punitivas sobre quem elas recaem. Mas, animados pelo espírito do Evangelho, tenhamos como referência a misericórdia e o perdão, supondo o arrependimento e a volta atrás dos pecadores. Busquemos a Palavra de Jesus nas Bem-aventuranças: “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7). O que mais queremos ouvir de Jesus sobre o perdão se Ele assim nos ensina a rezar no Pai-Nosso: “... perdoai-nos, assim como nós perdoamos...”?

Neste Ano Santo da Misericórdia não podemos deixar de refletir – como vimos propondo até aqui – sobre as dimensões da misericórdia propostas pelo papa Francisco. Tome em suas mãos e leia bem devagar o parágrafo 9 da MV.

Veja, ainda, como são nada mais que admiráveis as orientações encontradas na MV sobre a questão da relação entre justiça e misericórdia ao tratar do assunto da corrupção. Para não me alongar em citações, sugiro com veemência, sua leitura no nro.19 da MV! Fica a impressão de tudo ter sido escrito de propósito para a nossa atual realidade brasileira. Mas, confesso: não resisto à tentação de citar um bom trecho do mesmo parágrafo. Depois de dirigir um apelo aos criminosos para a conversão, ele estende o convite: “O mesmo convite chegue também às pessoas fautoras ou cúmplices de corrupção. Esta praga putrefata da sociedade é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social. A corrupção impede de olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projetos dos fracos e esmaga os mais pobres. É um mal que se esconde nos gestos diários para se estender depois aos escândalos públicos. A corrupção é uma contumácia no pecado, que pretende substituir Deus com a ilusão do dinheiro como forma de poder. É uma obra das trevas, alimentada pela suspeita e a intriga. ‘Corruptio optimi pessima’[5] dizia, com razão, São Gregório Magno, querendo indicar que ninguém pode sentir-se imune a essa tentação. Para  erradica-la da vida pessoal e social são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência, juntamente com a coragem da denúncia. Se não se combate abertamente, mais cedo ou mais tarde torna-nos cúmplices e destrói-nos a vida” (MV 19). E conclui: “Este é o momento favorável para mudar de vida! Este é o tempo de se deixar tocar o coração. Diante do mal cometido, mesmo crimes graves, é o momento de ouvir o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afetos, da própria vida. Permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. A verdadeira vida é outra coisa. Deus não se cansa de estender a mão. Está sempre disposto a ouvir, e eu também estou, tal como os meus irmãos bispos e sacerdotes. Basta acolher o convite à conversão e submeter-se à justiça, enquanto a Igreja oferece a misericórdia” (MV 19).

4.6. Solidariedade/ Partilha. São dois termos que sintetizam a pessoa, o testemunho, enfim, toda a vida de Jesus. Vida cujo resumo está nas primeiras palavras da MV: “Jesus Cristo é o rosto misericordioso do Pai. O mistério da fé cristã parece encontrar nestas palavras a sua síntese. Tal misericórdia tornou-se viva, visível e atingiu seu climax em Jesus de Nazaré” (MV 1). Quem se diz seguidor de Jesus e, portanto, anda no seu caminho, mas não assume no seu cotidiano o modo de ser e de viver do Mestre, parece ter escolhido outros atalhos. Ser e viver de Jesus: sensível e solidário (Jo,5-9); humano e carinhoso (Mt 18,2-3; Lc 9,47-48); compassivo (Mt 9,36, 15-37; Lc 7,15; Jo 11,33); misericordioso (Lc 7,15).  Todo o parágrafo 8 da MV ajuda-nos e compreender melhor o rosto misericordioso de Jesus: “Os sinais que realiza, sobretudo para com os pecadores, as pessoas pobres, marginalizadas, doentes e atribuladas, decorrem sob o signo da misericórdia. Tudo n’Ele fala de misericórdia. N’Ele, nada há que seja desprovido de compaixão” (MV 8).

É na Eucaristia que vamos encontrar o mais profundo significado de partilha ou de multiplicação, se assim o desejarmos. O Evangelho de João nos fala da multiplicação ou partilha dos pães. No fundo trata-se de multiplicação entre tantos seguidores de Jesus e de generosa partilha do Corpo e Sangue de Jesus. Durante séculos conhecemos a celebração da Missa quase que exclusivamente no seu aspecto, digamos, sacrificial ou seja, como o Santo Sacrifício da Missa. Entretanto, além desse lado, existe o seu aspecto de partilha e solidariedade presentes na Eucaristia. Poderíamos, então, vivenciar a Missa como a Santa Partilha do Corpo de Cristo. Por que não?

4.7. Paz interior. Crises próximas ou distantes; pessoais ou institucionais são caldo propício para guerras e tribulações afetando – queira-se ou não – a tranquilidade e a paz do coração: “Não vejo a hora de terminar essa agonia!”, não será essa a expressão usada para extravasar nossas inquietações?  Onde ou em quem buscar a paz que tanto necessitamos e com a qual tanto sonhamos? É n’Ele que podemos encontrar e nutrir, além da paz, aquele equilíbrio espiritual, psíquico e/ou emocional necessário para o nosso dia a dia. Nas Bem-aventuranças: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Respondendo a um dos discípulos, Ele assim afirma: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não é à maneira do mundo que eu a dou. Não se perturbe o vosso coração nem se atemorize” (Jo 14,27).  E, juntamente com a paz, Jesus os adverte sobre as aflições futuras por sua causa, pedindo-lhes coragem e confiança: “Eu vos disse essas coisas para que, em mim, tenhais a paz. No mundo tereis aflições. Mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33). Ressuscitado, aparecendo em diferentes ocasiões aos discípulos, saúda-os sempre com “A paz esteja convosco!”.

4.8. Diálogo. Em lugar de agressões verbais ou físicas, diálogo... em lugar de palavras ásperas, diálogo...  em lugar de discussões que levam a nada, diálogo... em lugar de revides, diálogo...  em lugar de protestos sem causa, diálogo... Tudo porque embora se dê a partir de pessoas distintas ou de pontos de vista diferentes, o verdadeiro diálogo supõe que haja compreensão e boa vontade recíprocas.  Assim deveria ser na dimensão meramente do humano. Aqui, no contexto de uma espiritualidade evangélica, o conselho nos é dado pelo próprio Jesus: “Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto ele caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. Em verdade, te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo” (Mt 5, 25-26). Diálogo, portanto, pode e deve levar a uma das mais altas expressões da fé cristã por referir-se, também, à misericórdia de Deus e se chama reconciliação.  No caminho de Jesus a reconciliação chega a ser uma atitude quase heróica e radical, pois ela depende unicamente de uma iniciativa pessoal e não da espera pelas providências do outro. Trata-se nada mais nada menos do que ir oferecer ocasião de perdão a quem você sabe que “tem alguma coisa contra ti”: “Portanto, quando estiveres levando a tua oferenda ao altar e ali te lembrares que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferenda diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só então, vai apresentar a tua oferenda” (Mt 5,23-24). Isto é, resumindo, dialogar!

4.9. Esperança.  Com a melhor das intenções deixei para um último ponto a proposta de uma esperança viva e incentivadora. Isso porque, todas essas atitudes, a começar pelo seu interior, pelo seu coração, hão de levar um seguidor do caminho de Jesus, especialmente durante um tempo de crise, a viver fortemente a esperança. Esperança nos homens e políticos dignos e honestos, pessoas de bom senso e de prudência com as quais, apesar das aparências em contrário, ainda podemos contar! Mas, sobretudo, alimentar nossa esperança na Providência divina, na intervenção, ainda que indireta, de Deus Pai. Toda a Bíblia, mas especialmente o Novo Testamento fala-nos de esperança. “Esperando contra toda esperança, ele firmou-se na fé...” afirma São Paulo sobre Abraão (Rm 4,18). E mais adiante: “Que o Deus da esperança vos encha de toda a alegria e paz, em vossa vida de fé. Assim, vossa esperança transbordará pelo poder do Espírito Santo” (Rm 15,13).

Finalmente, seria impossível terminar sem uma forte e decisiva lembrança da esperança que, para nós, é a RESSURREIÇÃO tantas vezes prometida por Jesus àqueles que  decidem segui-Lo, embora passando pela cruz: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá” (Jo 11,25). Ainda: “Esta é a vontade do meu Pai: quem vê o Filho e nele crê tenha vida eterna. E eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6,40). E, para terminar, não poderia ficar fora o ponto quase final do Apocalipse de João: “Vi então um novo céu e uma nova terra. Pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo de Deus, vestida como noiva enfeitada para seu esposo. Então, ouvi uma voz forte que saía do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus-com-os homens. Ele vai morar junto deles. Eles serão o seu povo, e o próprio Deus-com-eles será seu Deus. Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas anteriores passaram’”(Ap 21, 1-4).

Eucaristia. Não se trata de mais um ponto de reflexão sobre superação de crise. Trata-se do alimento que Jesus nos oferece para alimentar, fortalecer e inspirar a autêntica espiritualidade que, originada na sua Palavra, há de nos transformar por dentro. Dessa forma, sim, superando nossas limitadas forças e nosso forte desânimo, somos animados pela esperança que, diariamente podemos renovar não só em companhia do Senhor Jesus, mas vivendo a intimidade com Ele, alimentados pelo seu Corpo e pelo seu Sangue. Em decorrência dessa sublime, ainda que misteriosa realidade, seremos capazes de transformar todas as atitudes aqui sugeridas como um itinerário para viver a mais autêntica espiritualidade cristã, em ATITUDES EUCARÍSTICAS e, diante de um mundo em crise, proclamar, como faz o celebrante da missa, após a consagração do Corpo e do Sangue de Jesus: “EIS AQUI O MISTÉRIO DA FÉ”! 

5. Conclusão. Concluindo, deixo meus benévolos leitores e leitoras com uma afirmação do mesmo teólogo José A. Pagola que acima nos falou de uma “cultura da violência” e agora nos propõe uma “cultura da paz” e com uma instigante pergunta ou, se preferirem, a proposta de um novo começo: "A cultura da paz" sempre se arraiga na verdade. Deformá-la ou manipulá-la a serviço de interesses partidaristas ou de estratégias obscuras não levará à verdadeira paz. Mentir e enganar o povo sempre gera violência.

A "cultura da paz" só se assenta numa sociedade quando as pessoas estão dispostas ao perdão sincero, renunciando à vingança e à revanche. O perdão liberta da violência do passado e gera novas energias para construir o futuro entre todos.

No meio desta sociedade, nós cristãos temos que escutar de maneira nova as palavras de Jesus, "deixo-vos a paz, eu vos dou a minha paz", e temos que perguntar-nos o que fizemos dessa paz que o mundo não pode dar, mas precisa conhecer.

E a pergunta esperando sua resposta para um novo começo: você se deixa transformar pela CRISE atual: mentiras; corrupção; violência; injustiças; ódios; perseguição ou pelos VALORES e CRITÉRIOS do caminho de Jesus traçado nos Evangelhos?




[1] Ian Mitroff - PhD e professor emérito da Marshall School of Businnes nos EUA -

[2] Pagola, J.Antonio, O caminho aberto por Jesus – João.
[3] Id.ib.
[4] Id.ib
[5] Provérbio latino atribuído a São Gregório Magno que poderia assim ser traduzido: “É péssima a corrupção do ótimo”. Outra tradução: “A corrupção torna péssimo o ótimo” (cf.Tosi, Renzo, Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas, nro.761, p.359, Ed.Martins Fontes, 2ª.Ed., 2000)  

Nenhum comentário:

Postar um comentário